Na espera de dias melhores.

Uma reflexão sobre medos, angústias e como o olhar de abundância tem me ajudado em dias sombrios.

Dia 18 de março de 2020, oficialmente hoje iniciamos nossa reclusão por conta do coronavírus. Um misto de emoções e sentimentos que não sei se consigo transformar em palavras. Faltam dois dias para o aniversário de 3 anos do meu filho e, nos encontramos aqui, explicando para uma criança que a festa com o parabéns e amigos ficará para sabe-se deus quando, pois tem um “bichinho” por ai que está fazendo dodói nas pessoas e todos precisamos ficar em casa. No primeiro instante ele fez uma cara triste e falou: “E meus amigos?”, respondi que estavam em casa com a família deles e assegurei que assim que voltarem para a escola terá bolo de chocolate com morangos, vela do Mickey e todos os seus amigos, como me foi pedido.

Após, só consigo pensar se poderia cumprir com essa promessa (no fundo, acredito que sim, mas às vezes o medo invade e não saber o futuro assusta). Logo, penso em todas as famílias dos amigos dele, em todas as pessoas que amamos, que conhecemos e que sabemos que possuem pessoas de risco em suas famílias. Me questiono assustada: onde tudo isso vai parar?

Na sequência, recebo um áudio de uma amiga que já não divide mais a mesma cidade que nós perguntando como estamos. Até isso é difícil responder. Estamos, somente isso.

Me pego pensando onde eu estava há 3 anos atrás, com uma barriga enorme, aguardando a chegada do meu pequeno, esperando ansiosamente a bolsa estourar e sem saber como seria o parto dele. Mais uma vez estava eu lá, com a falsa sensação de segurança e controle e com um enorme medo do futuro. No entanto, a diferença de antes e agora, que quebra meu coração, é que daquela vez tudo que eu esperava era positivo e esperançoso, pois é isso que uma nova vida trás.

Agora, quando o medo bate, a ansiedade com misto de felicidade já não o acompanha… O que vem junto é um quase um pânico que levemente acelera o coração por medo da morte. Morte e sofrimento de muitos que não conheço, de pessoas que não tem acesso à informação, saúde e muito menos aos tão desejados álcool em gel e papel higiênico. Medo do inesperado, de algo trágico e próximo com quem amo e ou até comigo mesma.

Empacoto todo o meu medo e guardo, pois tenho uma criança de quase 3 anos que precisa ser colocada para dormir durante a tarde e seguir rotina. E assim eu sigo, olho em volta e agradeço por poder ser tão abençoada em poder estar em casa com toda minha família ao meu lado, sem ter que ir trabalhar, ou ver alguém que eu amo precisar se expor.

Sigo com medo, preocupada com os tempos sombrios que virão, com a crise econômica que já desponta e, com o possível aumento no número de mortes que ouviremos nos noticiários e de amigos nos grupos de WhatsApp nas próximas semanas.

Espanto os pensamentos de escassez que me lembram os boletos, possíveis cancelamentos de clientes e todas incertezas que me amedrontam. Foco minha mente na abundância de tudo que tenho, de agradecer por ter sabão e água para cuidar da minha família, alimentos frescos e higienizados, um teto e saber que boa parte das pessoas que eu amo estão em seus lares. Olho pela janela do quarto em que escrevo esse texto, vejo um dia lindo e ensolarado e mais uma vez agradeço: “Obrigada sol por ter voltado a dividir conosco seu brilho e calor”. Calor esse que ilumina e acaricia meu coração e minha alma na promessa de dias melhores.

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